22 de fev de 2008

ROCK QUE REINVENTE O MESMO

O GLOBO-16/10/07
João Máximo

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Quem ainda não viu "Cê", nem ouviu o CD que o inspirou (desestimulado talvez pelos comentários que o classificaram como um show de rock), na certa vai se surpreender com o DVD gravado para o Multishow e agora lançado pela Universal. Sobretudo por ser menos roqueiro do que o CD, o qual já não tinha tanto rock quanto se disse.
O próprio Caetano Veloso já explicava no encarte do CD_e volta a explicar claramente no making of do DVD_que as 12 canções de "Cê" foram feita pensando numa pequena banda de rock, com elementos do rock, referências ao rock, "letras concisas e imagens brutas" como as do rock, mas sem pretenderem ser rock ou fazer revisão do rock brasileiro dos anos 80.

Show de rejuvenescimento artístico e físico

Como de costume, Caetano consegue o que quer. Mais ainda no show que no disco. Porque ele e a sua banda (na verdade um trio formado pelo guitarrista e diretor musical Pedro Sá, o baixista Ricardo Dias Gomes e o baterista Marcelo Callado) não só levam ao palco a forma e o conteúdo de 11 das canções do disco, como acrescentam as mesmas especiarias(instrumentação, andamento, harmonia) à maioria das 14 interpoladas ao programa, algumas escritas à décadas, tornando-as assim conectadas e formalmente contemporâneas às de "Cê".
O que não suepreende no Caetano que DVD documenta é a capacidade de remoçar-se física e artísticamente com o correr dos anos. Seu modo de aproximar-se do rock, sem o assumir plenamente, é prova disso. Difere muito do defendido por ele nos festivais de 40 anos atrás. Pedro pode fazer a guitarra guinchar em seus solos, Marcelo pode empunhar baquetas roqueiras em algumas passagens, o público pode fazer força para entrar no clima (o tempo todo de pé, pouco ligando para o desconforto, confirmando que show de rock é mesmo pra gente jovem) e até Caetano pode esboçar gestos e saltos à maneira de um popstar. Nada disso, porém, é o bastante para fazer de 'Cê" um show de rock.
É, sim, um show de Caetano, com a marca do seu talento, suas inquietações, seu espírito e sua energia realmente remoçados. Não só pelo que faz aos 64 anos, unindo-se a jovens e tentando criar uma música mais jovem ainda. Dois outros detalhes chamam a atenção no show que chega ao DVD. Primeiro, os arranjos, ao que consta elaborados em conjunto pelos quatro artistas que dividem o palco.

São contidos, na medida certa, para que Caetano cante suas letras com clareza e o público preste atenção no que elas dizem. Nenhuma altissonência instrumental o importuna. O outro detalhe é a forma como foram distribuidas as canções: entre uma ou duas do disco, inserem-se duas ou mais de gênero,estilos e épocas tão diversos quanto as gravadas em inglês no exílio londrino, as do LPs "Transa" e "Livro", os sucessos revividos com novas roupagens (caso de Sampa e "Desde que o samba é samba"), o frevo de Moraes Moreira, o Jorge Ben Jor de quando era simplismente Ben e até "A voz e o violão", clássico seresteiro cujo primeiro registro em disco é de 1928.
Neste como a maior parte do show, o intérprete Caetano desmente o que ele mesmo disse sobe o prazer de Cantar... "só não me dá mais porque não canto tão bem quanto acho que deveria cantar". Modéstia Caetânica. O intérprete está no melhor de sua forma, mantendo ainda aquela aquela qualidade rara de tornar suas as canções dos outros, tenham sido escritas por Peninha ou Cole Porte, Morris Albert ou Chico Viola. No show, isso fica especialmente claro quando ele canta "Ilusão à Toa" e em seguida "Amor Mais que Discreto", Johnny Alf e Caetano Veloso como se fôssem um só.

"O herói" funciona melhor no SHOW do que no CD

Já nas próprias canções, o intéprete é insuperável, o que o DVD também mostra mais nitidamente que o CD. Dois grandes momentos deste, "Minhas Lágrimas" e "Não me arrependo", ganham mais força ao vivo. E a discursiva "O herói" funciona melhor que no disco, que ele fecha agressivamente com guitarra e vocal,estes sim, roqueiros.
O DVD, tecnicamente irrepreensível, é tão bom quanto pode ser um DVD de show gravado ao vivo, no mesmo palco, com o mesmo cenário, pouco importa se de rock ou de orquestra sinfônica. Há quem, justamente por isso, ressalte o caráter descartável desse tipo de produto: que se vê uma vez, no máximo duas e nunca mais.
Os que o defendem acentuam sua importância como documento."Cê", por exemplo, estaria melhor preservado assim, na íntegra, sem interrupções, do que com inserções, de cenas, depoimentos, entrevistas, como já tem sido feito por outros projetos. De qualquer forma, é culpa do formato e não dos sete câmeras ou de Moreno Veloso, que assina a gravação do DVD se as imagens se tornam repetitivas e se, ao fim de uma hora e 46 minhutos, só não cansam pela qualidade do que se ouve.

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