22 de fev de 2008

Por que Caetano Veloso é tão citado?

Deonísio da Silva (*)


O Brasil não é um país que lê, é um país que ouve. Comparadas as tiragens de livros e cedês, as primeiras parecem clandestinas, mesmo quando são romances ou obras de referência, como os indispensáveis dicionários e manuais. Talvez até mesmo os livros didáticos não alcancem as tiragens de cedês de sucesso médio.

Ainda assim, os autores dos dicionários de língua portuguesa mais vendidos entre nós, como o Aurélio, o Michaelis e o Houaiss, nunca foram agraciados com distinções semelhantes àquelas conferidas a cantores e compositores, como os discos de ouro e de platina. Nossos autores, mesmo os de grande sucesso, seja entre os ficcionistas, ensaístas e poetas, seja entre os autores de obras de referência e consulta obrigatórias, jamais foram agraciados com troféus que lembrem algo parecido com livro de platina, livro de ouro etc.

Os maiores prêmios editoriais financeiramente não mudam a vida de ninguém. A pequena cidade de Passo Fundo, no interior do Rio Grande do Sul, em parceria da universidade e da prefeitura municipal locais, oferecia até o ano passado o maior prêmio do Brasil ao autor do melhor romance – 100 mil reais – atribuído bienalmente por ocasião das suas já tão célebres jornadas literárias, que transformam os escritores em ídolos por alguns dias. A última edição reuniu mais de dez mil pessoas ano passado. O governo do estado de Santa Catarina acaba de reeditar, depois de várias interrupções, o prêmio Cruz e Sousa, arrebatando a auréola de maior prêmio literário brasileiro: 280 mil reais distribuídos aos seis melhores colocados em livros de contos inéditos. O concurso está alvoroçando a república das letras

Entretanto, comparados tais valores aos percebidos por prêmios na área musical, e comparados os respectivos direitos autorais auferidos, escritores e músicos estão muito distantes. Pois consolidou-se entre nós, dada a reconhecida habilidade verbal do brasileiro que, por mais inculto, tem condições de entender e comentar uma corrida de Fórmula 1, uma cultura do ouvir que sobrepuja de longe a cultura do ler. Ouvimos e vemos, já ler continua sendo ainda uma praia pouco freqüentada. É possível entender essa situação à luz de outros mirantes: a Receita Federal reconhece que apenas cerca de 17 milhões de brasileiros pagam Imposto de Renda. Tal relação é crucial para o livro que não seja didático, o de receitas, o de auto-ajuda ou o dicionário. Ou a tiragem de nossos grandes jornais e revistas que, percentualmente, ainda são pouco lidos. A coisa piora quando se trata de livro. Um romance, uma coletânea de contos, poesias reunidas, um ensaio iluminador? Se sobrar no orçamento ou se a mídia apresentá-lo como indispensável, daí, sim. Nosso público leitor e nossas tiragens situam-se nas mesmas estreitas faixas há décadas! Há poucas exceções

Sinal dos tempos

O mesmo não se pode dizer da música, especialmente da Música Popular Brasileira (MPB), onde hoje cabem os gêneros mais discrepantes. Algumas estrelas dominam o céu da pátria musical há décadas. Tendo buscado o circuito universitário, a MPB consolidou-se como opção à sertaneja, também de grandes tiragens, às vezes mesclando-se a ela. Na Bahia concentram-se os emblemas dessas referências que parecem eternas: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa merecem a consideração geral há muitos lustros!


Caetano Veloso é um caso singular por constituir-se em referência tanto entre o público leitor dos círculos elegantes como entre os ágrafos, sobretudo universitários, aqueles a quem o poeta Mário Quintana denominou "analfabetos autodidatas", por terem aprendido a ler, mas dali por diante não lerem mais nada ou muito pouco.

Não bastasse lermos pouco, a censura permanece como espada de Dâmocles ao longo desses cinco séculos, fazendo da liberdade um oásis histórico e geográfico, que emerge em tempos e espaços específicos. A censura como norma e como recurso voltou a manifestar-se semana passada. Anthony Garotinho, candidato à presidência da República, que governou até recentemente um dos mais influentes estados do Brasil, o Rio de Janeiro – influente sobretudo na criação e permanência desses ídolos da música e também de outras artes – conseguiu na Justiça a censura prévia à revista Carta Capital. Mas ele não se jacta de ter sofrido durante a ditadura militar? Por que então quer reviver uma de suas práticas mais vergonhosas, a censura prévia, ainda que por meio de um imbroglio no Judiciário? Sinal dos tempos? Pois foi sinal dos tempos também a repercussão. Ninguém menos do que o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio Mello, ocupando interinamente o posto ambicionado por Garotinho, manifestou-se contra a censura, citando – quem? algum célebre jurista europeu, algum schollar dos EUA, a nação que se considera líder da liberdade no Ocidente, um francês, um alemão?

Não, um músico, Caetano Veloso, atribuindo-lhe a autoria do dístico célebre É proibido proibir.
O cantor e compositor vai assim acumulando elogios vindos de onde menos se espera. E agora? Podemos questionar a autoria, lembrando que a frase já estava circulando pelo mundo, pois houve uma cultura antes de Caetano Veloso, e a frase pode ter sido extraída do livro de um grego ou romano antigos? Com efeito, é freqüente entre ouvintes no atacado e leitores no varejo uma vaga e difusa polêmica também sobre a autoria do verso "navegar é preciso, viver não é preciso", que o compositor baiano incluiu na letra de Os Argonautas. É verdade que os fãs de Caetano Veloso, entre os quais há quem aprecie Fernando Pessoa, as opiniões se dividem apenas entre se foi o português ou o brasileiro o autor do verso.

Uns poucos, para quem Caetano Veloso é apenas um bom compositor e cantor, entre tantos que o Brasil tem, diferenciando-se, porém, em vista de certas idiossincrasias, por ocupar mais a mídia do que qualquer outra figura nacional depois de alguns esportistas, acham que quem proferiu a frase famosa foi o general romano Pompeu, provavelmente também ele tendo recolhido da fala coloquial vigente naqueles anos ou adaptando o ditado do grego, vez que o registrou num latim sem a elegância de Júlio César, que o venceu, aliás, também militarmente: navigare necesse est, vivere non necesse. A ciência mais praticada no Brasil, como sabemos, é a achologia. Todos acham alguma coisa, às vezes até sem procurar muito.

Viver é necessário, embora cada vez mais perigoso, e navegar – ainda mais nesses tempos da internet – tornou-se inevitável. E, sinal dos tempos, vai ficando cada vez mais difícil fazer as citações corretamente, atribuindo a autoria a quem de direito, vez que tudo parece misturar-se nas águas globais. Mas é possível recuperar as autorias devidas, sim, mesmo porque esta questão é a ponta de um gigantesco iceberg que tem muito a ver com o trabalho do intelectual, que pesquisa e precisa beber a água do saber de uma fonte limpa, ainda não contaminada por misturas de outros líquidos que não são água, se é que me faço entender. Para não falar do caso das patentes, que o artigo precisa ser curto.


(*) Escritor e professor da UFSCar; seu romance mais recente é Os Guerreiros do Campo

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