Resumo:
Este trabalho tem por objetivo investigar como o cancioneiro popular brasileiro percebe o espaço urbano das nossas grandes cidades (em especial Rio de Janeiro,Salvador e São Paulo, as mais recorrentes), a partir de meados da década de 1960, além de buscar compreender em que medida estas visões têm pontos de contato com as diversas teorias e práticas urbanísticas que se desenvolveram no cenário internacional a partir do segundo pós-guerra, no processo de crítica, revisão e contestação ao urbanismo modernista.
Neste sentido, a análise se centrou nas letras das canções dos compositores mais representativos do período e que continuaram produzindo até os dias de hoje. Os baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil foram escolhidos por serem os principais nomes do movimento que se tornou conhecido como Tropicália ou Tropicalismo, surgido no final da década de 1960. Como contraponto a esta produção, foi analisada a visão de cidade apresentada nas letras das canções do compositor carioca Chico Buarque, a partir de meados da década de 1960, pela importância da sua produção e pelo significado que o espaço urbano tem em sua obra.
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Nivaldo Vieira de Andrade Junior
26 de fev. de 2008
A música popular na formação da imagem da cidade brasileira: a tropicália e o espaço urbano contemporâneo
23 de fev. de 2008
Fábio Eça - Banda de Boca - Salvador/BA
Ser fã de Caetano pra mim foi algo inevitável. Sempre fui cercado por montanhas de discos. Meu pai tem um acervo de uns 2000 Lps. Desde muito pequeno ele me fazia ouvir coisas como Luiz Gonzaga, Beatles e música erudita. Eu sempre estava fuçando os discos, contemplando as capas. Lembro que via as fotos de Caetano com mais curiosidade que as de outros artistas, e as via com muito temor! Sim, eu tinha medo! Ficava amedrontado com aquela figura magérrima, de cabelos enormes, desgrenhados, com olhos arregalados... parecia um ser de outro planeta. Isso me impactou mais do que sua música, primeiramente. Por isso eu tinha medo de ouvi-lo. Mas lembro de uma gravação que ele fez da música “Oh yes nós temos banana” que eu ouvia num disquinho infantil. Achava esquisito e muito legal. Lembro de uma novela (“Um sonho a mais”) em que tocava “Shy Moon”. Desde aquela época esta música não saiu da minha cabeça e me trazia sensações de nostalgia, de “querer voltar a um tempo longínquo”.
Comecei a procurar ouvi-lo a sério quando tinha uns 12 anos. Eu estudava piano e tinha uma partitura de “Alegria, Alegria”, mas nunca a tinha ouvido. Perguntei a meu pai sobre a música e ele cantarolou. Quase que imediatamente subi à sala de som, peguei um disco seu (aquele de 1968). Só de olhar aquela capa vermelha com aqueles desenhos me deu vertigem. Pus a dita pra tocar. Fiquei embriagado, em choque. Fiquei mesmo. Nunca tinha ouvido algo parecido, tão vibrante. Aquele órgão tocando no começo era um tapão no ouvido. Acordes aparentemente desconexos, sem relação. O acorde final então, totalmente fora do campo harmônico. Soava-me muito ousado, “fora da ordem” mesmo. Então fui ouvindo Soy loco..., Tropicália (que me impressionou demais também) Superbacana, Paisagem útil... ouvia tudo repetidamente. Eu estava descobrindo na sala de som de minha casa um universo que não imaginava existir. Com isso me interessei logo pelos primeiros discos. Enquanto ouvia ia devorando suas biografias, artigos e críticas antigas. Quando passei para os discos da fase pós-Londres eu já era um fã de carteirinha. Ouvi ‘Transa’ e pirei mais uma vez. E foi sempre assim, a cada disco uma torrente de sensações e surpresas. Ouvir Caetano pra mim, sempre foi diferente do que ouvir qualquer outro artista. Há algo além da música em sua arte e isso me instiga a ouvi-lo e descobri-lo mais e mais. Hoje ouço aquele mesmo disco de 1968 como se fosse pela primeira vez.
22 de fev. de 2008
Cláudia Rodrigues e Caetano - Londres - 01/10/2007
Da direita p/ esquerda: Luiza Tavares, Claudia Rodrigues(EU) Caetano, Leonel de Oliveira (aniversario de 40 anos) e Ros de Oliveira
Por que Caetano Veloso é tão citado?
Deonísio da Silva (*)
O Brasil não é um país que lê, é um país que ouve. Comparadas as tiragens de livros e cedês, as primeiras parecem clandestinas, mesmo quando são romances ou obras de referência, como os indispensáveis dicionários e manuais. Talvez até mesmo os livros didáticos não alcancem as tiragens de cedês de sucesso médio.
Ainda assim, os autores dos dicionários de língua portuguesa mais vendidos entre nós, como o Aurélio, o Michaelis e o Houaiss, nunca foram agraciados com distinções semelhantes àquelas conferidas a cantores e compositores, como os discos de ouro e de platina. Nossos autores, mesmo os de grande sucesso, seja entre os ficcionistas, ensaístas e poetas, seja entre os autores de obras de referência e consulta obrigatórias, jamais foram agraciados com troféus que lembrem algo parecido com livro de platina, livro de ouro etc.
Os maiores prêmios editoriais financeiramente não mudam a vida de ninguém. A pequena cidade de Passo Fundo, no interior do Rio Grande do Sul, em parceria da universidade e da prefeitura municipal locais, oferecia até o ano passado o maior prêmio do Brasil ao autor do melhor romance – 100 mil reais – atribuído bienalmente por ocasião das suas já tão célebres jornadas literárias, que transformam os escritores em ídolos por alguns dias. A última edição reuniu mais de dez mil pessoas ano passado. O governo do estado de Santa Catarina acaba de reeditar, depois de várias interrupções, o prêmio Cruz e Sousa, arrebatando a auréola de maior prêmio literário brasileiro: 280 mil reais distribuídos aos seis melhores colocados em livros de contos inéditos. O concurso está alvoroçando a república das letras
Entretanto, comparados tais valores aos percebidos por prêmios na área musical, e comparados os respectivos direitos autorais auferidos, escritores e músicos estão muito distantes. Pois consolidou-se entre nós, dada a reconhecida habilidade verbal do brasileiro que, por mais inculto, tem condições de entender e comentar uma corrida de Fórmula 1, uma cultura do ouvir que sobrepuja de longe a cultura do ler. Ouvimos e vemos, já ler continua sendo ainda uma praia pouco freqüentada. É possível entender essa situação à luz de outros mirantes: a Receita Federal reconhece que apenas cerca de 17 milhões de brasileiros pagam Imposto de Renda. Tal relação é crucial para o livro que não seja didático, o de receitas, o de auto-ajuda ou o dicionário. Ou a tiragem de nossos grandes jornais e revistas que, percentualmente, ainda são pouco lidos. A coisa piora quando se trata de livro. Um romance, uma coletânea de contos, poesias reunidas, um ensaio iluminador? Se sobrar no orçamento ou se a mídia apresentá-lo como indispensável, daí, sim. Nosso público leitor e nossas tiragens situam-se nas mesmas estreitas faixas há décadas! Há poucas exceções
Sinal dos tempos
O mesmo não se pode dizer da música, especialmente da Música Popular Brasileira (MPB), onde hoje cabem os gêneros mais discrepantes. Algumas estrelas dominam o céu da pátria musical há décadas. Tendo buscado o circuito universitário, a MPB consolidou-se como opção à sertaneja, também de grandes tiragens, às vezes mesclando-se a ela. Na Bahia concentram-se os emblemas dessas referências que parecem eternas: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa merecem a consideração geral há muitos lustros!
Caetano Veloso é um caso singular por constituir-se em referência tanto entre o público leitor dos círculos elegantes como entre os ágrafos, sobretudo universitários, aqueles a quem o poeta Mário Quintana denominou "analfabetos autodidatas", por terem aprendido a ler, mas dali por diante não lerem mais nada ou muito pouco.
Não bastasse lermos pouco, a censura permanece como espada de Dâmocles ao longo desses cinco séculos, fazendo da liberdade um oásis histórico e geográfico, que emerge em tempos e espaços específicos. A censura como norma e como recurso voltou a manifestar-se semana passada. Anthony Garotinho, candidato à presidência da República, que governou até recentemente um dos mais influentes estados do Brasil, o Rio de Janeiro – influente sobretudo na criação e permanência desses ídolos da música e também de outras artes – conseguiu na Justiça a censura prévia à revista Carta Capital. Mas ele não se jacta de ter sofrido durante a ditadura militar? Por que então quer reviver uma de suas práticas mais vergonhosas, a censura prévia, ainda que por meio de um imbroglio no Judiciário? Sinal dos tempos? Pois foi sinal dos tempos também a repercussão. Ninguém menos do que o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio Mello, ocupando interinamente o posto ambicionado por Garotinho, manifestou-se contra a censura, citando – quem? algum célebre jurista europeu, algum schollar dos EUA, a nação que se considera líder da liberdade no Ocidente, um francês, um alemão?
Não, um músico, Caetano Veloso, atribuindo-lhe a autoria do dístico célebre É proibido proibir.
O cantor e compositor vai assim acumulando elogios vindos de onde menos se espera. E agora? Podemos questionar a autoria, lembrando que a frase já estava circulando pelo mundo, pois houve uma cultura antes de Caetano Veloso, e a frase pode ter sido extraída do livro de um grego ou romano antigos? Com efeito, é freqüente entre ouvintes no atacado e leitores no varejo uma vaga e difusa polêmica também sobre a autoria do verso "navegar é preciso, viver não é preciso", que o compositor baiano incluiu na letra de Os Argonautas. É verdade que os fãs de Caetano Veloso, entre os quais há quem aprecie Fernando Pessoa, as opiniões se dividem apenas entre se foi o português ou o brasileiro o autor do verso.
Uns poucos, para quem Caetano Veloso é apenas um bom compositor e cantor, entre tantos que o Brasil tem, diferenciando-se, porém, em vista de certas idiossincrasias, por ocupar mais a mídia do que qualquer outra figura nacional depois de alguns esportistas, acham que quem proferiu a frase famosa foi o general romano Pompeu, provavelmente também ele tendo recolhido da fala coloquial vigente naqueles anos ou adaptando o ditado do grego, vez que o registrou num latim sem a elegância de Júlio César, que o venceu, aliás, também militarmente: navigare necesse est, vivere non necesse. A ciência mais praticada no Brasil, como sabemos, é a achologia. Todos acham alguma coisa, às vezes até sem procurar muito.
Viver é necessário, embora cada vez mais perigoso, e navegar – ainda mais nesses tempos da internet – tornou-se inevitável. E, sinal dos tempos, vai ficando cada vez mais difícil fazer as citações corretamente, atribuindo a autoria a quem de direito, vez que tudo parece misturar-se nas águas globais. Mas é possível recuperar as autorias devidas, sim, mesmo porque esta questão é a ponta de um gigantesco iceberg que tem muito a ver com o trabalho do intelectual, que pesquisa e precisa beber a água do saber de uma fonte limpa, ainda não contaminada por misturas de outros líquidos que não são água, se é que me faço entender. Para não falar do caso das patentes, que o artigo precisa ser curto.
(*) Escritor e professor da UFSCar; seu romance mais recente é Os Guerreiros do Campo