23 de fev de 2008

Fábio Eça - Banda de Boca - Salvador/BA

Ser fã de Caetano pra mim foi algo inevitável. Sempre fui cercado por montanhas de discos. Meu pai tem um acervo de uns 2000 Lps. Desde muito pequeno ele me fazia ouvir coisas como Luiz Gonzaga, Beatles e música erudita. Eu sempre estava fuçando os discos, contemplando as capas. Lembro que via as fotos de Caetano com mais curiosidade que as de outros artistas, e as via com muito temor! Sim, eu tinha medo! Ficava amedrontado com aquela figura magérrima, de cabelos enormes, desgrenhados, com olhos arregalados... parecia um ser de outro planeta. Isso me impactou mais do que sua música, primeiramente. Por isso eu tinha medo de ouvi-lo. Mas lembro de uma gravação que ele fez da música “Oh yes nós temos banana” que eu ouvia num disquinho infantil. Achava esquisito e muito legal. Lembro de uma novela (“Um sonho a mais”) em que tocava “Shy Moon”. Desde aquela época esta música não saiu da minha cabeça e me trazia sensações de nostalgia, de “querer voltar a um tempo longínquo”.

Comecei a procurar ouvi-lo a sério quando tinha uns 12 anos. Eu estudava piano e tinha uma partitura de “Alegria, Alegria”, mas nunca a tinha ouvido. Perguntei a meu pai sobre a música e ele cantarolou. Quase que imediatamente subi à sala de som, peguei um disco seu (aquele de 1968). Só de olhar aquela capa vermelha com aqueles desenhos me deu vertigem. Pus a dita pra tocar. Fiquei embriagado, em choque. Fiquei mesmo. Nunca tinha ouvido algo parecido, tão vibrante. Aquele órgão tocando no começo era um tapão no ouvido. Acordes aparentemente desconexos, sem relação. O acorde final então, totalmente fora do campo harmônico. Soava-me muito ousado, “fora da ordem” mesmo. Então fui ouvindo Soy loco..., Tropicália (que me impressionou demais também) Superbacana, Paisagem útil... ouvia tudo repetidamente. Eu estava descobrindo na sala de som de minha casa um universo que não imaginava existir. Com isso me interessei logo pelos primeiros discos. Enquanto ouvia ia devorando suas biografias, artigos e críticas antigas. Quando passei para os discos da fase pós-Londres eu já era um fã de carteirinha. Ouvi ‘Transa’ e pirei mais uma vez. E foi sempre assim, a cada disco uma torrente de sensações e surpresas. Ouvir Caetano pra mim, sempre foi diferente do que ouvir qualquer outro artista. Há algo além da música em sua arte e isso me instiga a ouvi-lo e descobri-lo mais e mais. Hoje ouço aquele mesmo disco de 1968 como se fosse pela primeira vez.

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