29 de fev de 2008

DA BOSSA NOVA À TROPICÁLIA: contenção e excesso na música popular / SAntuza Cambraia Naves


Em 1968, Augusto de Campos reuniu no livro Balanço da bossa: antologia crítica da moderna música popular brasileira uma série de artigos seus e de músicos como Júlio Medaglia e Gilberto Mendes, publicados anteriormente em suplementos literários de jornais paulistas, que analisam, entre outras experiências musicais recentes, como a da tropicália, o estilo desenvolvido pelos bossanovistas. Estes autores, a propósito de defender uma postura internacionalista e moderna na música popular, em contraposição aos ideólogos do "nacional-popular", ressaltam a atitude inovadora dos criadores da bossa nova, articularmente a figura de João Gilberto. Eles são unânimes em atribuir a João Gilberto uma postura que valoriza a contenção, contrária ao emocionalismo excessivo da música popular das décadas de 40 e 50, e em estabelecer uma correspondência entre este procedimento e outras manifestações estéticas dos anos 50, como a poesia concreta e a arquitetura de Oscar Niemeyer. Assim, segundo eles, ao introduzir um registro musical intimista semelhante ao do cool jazz, a bossa nova harmonizar-se-ia com o ideário de racionalidade, despojamento e funcionalismo que teria caracterizado várias manifestações culturais do período. Vale acrescentar que se valoriza, nesta tendência, o procedimento bossa-novista de ruptura com tradições anteriores da música popular no Brasil. Assim, tal como os poetas concretos, que teriam rompido com as tradições retóricodiscursiva e subjetivista na literatura, os músicos da bossa nova, notadamente João Gilberto, pautariam o seu trabalho pela rejeição dos sambas-canções e dos boleros melodramáticos do período anterior, e da maneira operística de interpretar estas canções, ao estilo de Dalva de Oliveira e outros cantores do período.


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