4 de jun de 2007

Carta aberta a Caetano / Tom Zé - Análise da Carta / Luiz Américo Lisboa Jr


O Globo de 27 de maio 2007


Carta aberta a Caetano /


Tom Zé



"Prezado senhor Caetano: estou revoltado. És o que és, grande traidor. O senhor é um suicida.Esclareço: quem tem inimigos como Caetano Veloso não precisa de amigos. Claro que me refiro àqueles inimigos leais que o perseguem sem trégua e acabam provocando uma espécie de "reversão do meio superaquecido", desencadeando o efeito contrário. Mas Veloso não é veludo e esse "Cê" veio trair a todos.


Prezado senhor: "Apesar de nossas enormes discordâncias" - que o inferno as tenha, pois nem mesmo as considero e só me expresso assim para imitar o preciosismo do escrevedor que tem medo de amar. Porém, por minha parte, prefiro abrir concupiscentes pernas, exalando soluços por todos os poros, dando ao ato de amar total irresponsabilidade, porque ante a cupidez estétida de "Cê" só a nudez tem língua.


És o que és, grande traidor.Entras no palco dirigindo contra nós a carruagem do tempo em alta velocidade e, como o Jando de Shelley, apesar de teres duas ou quatro caras, vens com todos os olhos vendados. E não podes nem queres deixar nosso coração em paz, a desafiar noassas velhas e amenas mentiras. Não! Brincas com a impermanência diante da platéia, como se nossa pele fosse matéria-prima inorgânica ou carne de laboratório. Com graça e arte tentas nos atrair com laços de volúpia, submetendo-nos blasfêmias emocionais para as quais nem teu parco bom senso atingiu consenso ainda.Por exemplo: queres nos induzir à responsabilidade.


Mas como, inveloso traidor? E quando estivermos a sós, depois da fugaz ilusão da tua companhia protetora durante o show, como nos arranjaremos, na intimidade crua, com essa dama asquerosa, inconveniente e constrangedora - a tal responsabilidade? Por essas e outras, sumo traidor, é melhor que assumas, logo e sem máscaras, a Quinta Besta do Apocalipse, que é o teu papel neste mundo.


E quanto aos arranjos: Beethoven, em 1808, na Terceira Sonata para Piano e Violoncelo, além de inaugurar a sonata moderna, na qual, entre outras inovações, o instrumento de corda não é mais um simples acompanhador do piano – e justamente para obter isso – teve de evitar que os médios e graves do piano encobrissem o cello, escrevendo com habilidade para os dois instrumentos, principalmente quando nesta região. Pois Beethoven conseguiu passar a lição para os arranjadores deste “Ce”. De onde terá me saído esse Pedro Sá (guitarra)? E esse Ricardo Dias Gomes (baixo) e esse batera Marcelo Callado, que batera! Parabéns, Moreno, é cada moelque!...Que alívio ouvir um trabalho em que guitarra-baixo-violão e voz estão sempre e engenhosamente evitando se atropelar na mesma região escalada de hertz, porque quando se dá esse imbróglio atropelam também o trabalho do técnico de som, que na luta para fazer ressair a voz e banda faz a platéia “nossa, preciso urgentemente de um médico de ouvido”.Os arranjos se desenvolveram durante a turnê e se tornaram acontecimentos sonoros independentes, como trechos inteiros que pode pleitear o status de composição. Por isso, a comparação com Beethoven: tudo em que ele punha a mão era montagem inaugural do potencial de enredo e força da tonalidade – a mais filosófica invenção ocidental.Descaminho da escada diatônica de Gregório Magno, a tonalidade, esse mantra desenvolvido em volta do centro tonal, distraiu e deu insumo à inteligência no Ocidente, de Descartes e Kant ou Newton e Einstein até José Ramos Tinhorão – para ter seu final no MC Sandrinho e Bola de Fogo, com meta-refrão microtonal e plurissemiótico “To ficando atoladinha, to ficando atoladinha, to ficando atoladinha”.


E assim, senhor Quinta Besta do Apocalipse, és o que és: um desveloso traidor."



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Análise da Carta de Tom zé
Por Luiz Américo Lisboa Júnior


Tom Zé, como sempre à primeira impressão procura confundir mais do que explicar, ou procura explicar confundindo, eis aí a questão. Nada disso! Caetano traidor, transgressor, o mito Bethoven nos arranjos e presente na obra do baiano de Santo Amaro. Traidor de boas idéias, isso é que o sonoro Caetano, vinho que se purifica e fica mais refinado com a idade, nada comparado com seu Subaé, que não mais purifica seu leito. Presente, criativo, perfeito! Caetano é o palco vibrante, é a platéia pulsando, é a musica popular brilhando, e Tom Zé, é o arrebatador das nossas transgressões musicais, o homem artista que nos incomoda, e não se incomoda com nossa inquietação e a sua inquietação mental. Tom Zé e Caetano, não um, mas dois traidores da estetica musical polisemica e liquefeita dos nossos dias. Ambos não abrem mão de seus espaços criativos e por isso mesmo traem aqueles que querem o acomodamento das inócuas canções de hoje.Sabem que transformar ritmos, ou perpetua-los é obra daqueles que conhecem o oficio da composição como poucos, diferente dos que juntam tudo num caldeirão sem rumo e apregoam que estão apresentando novas tendencias e experiencias.

Balela!Caetano traiu, sim, e Tom Zé, traiu também, mas não a musica e sim os ouvidos daqueles que não sabem ouvir. Ah! Se Bethoven ouvisse Cê e os comentarios de Tom Zé, faria um concerto ou uma sinfonia em homenagem aos dois, e os convidaria, para serem parceiros. É isso aí, transgredindo sempre a musica popular vai caminhando, pois, Cê fique sabendo que o paiz e o mundo ha muito tempo vibra e pulsa, com os ventos fortes de Irara e Santo Amaro, numa perfeita união do reconcavo com o sertão.

Traidores, do mau gosto,eis graças a Deus o que voces são. Tom Zé ja disse tudo.

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